MOSCAS VOLANTES 8
(O nome dela talvez ainda pudesse ser Rita, mas o que restava saber é que este 8 não tem zero na frente, o que faz toda a diferença. Enquanto isto, todos na Terra - en el lodo como cerdos viles - devorariam a carne muito bem temperada de cavalos cegos servidos por uma outra mulher. Todos menos ela, que está no futuro, e o menino vegetariano que, acho, agora já cresceu.)
De quando ela voltou a temer o espelho e, a menos que tentasse compor uma música parecida com todas as outras e isto fosse do mesmo modo emocionante e desagradável como ela não trocar de roupa, pegar a foto, deitar sobre as molas e se masturbar duas, três vezes, cobiçando coisas mais românticas que excitantes, nada seria mais sem tônica do que compor canções parecidas com as demais, embora particulares.
No entanto, no episódio do táxi, ainda outono – hoje chegava a primavera -, possivelmente há muitos anos, provavelmente neste que corre, ela usava um casaco vermelho na hora do rush e não queria estar ali. De fato ela não estava, ela era surda, muda e tão cega que nem entendia o vendedor de frutas canhoto. Como agora, sentada no sofá branco, as quatro da manhã, longe, muito longe, lembrando que sentia raiva de pessoas que não dizem ‘eu te amo’, que queria escovar os dentes, que precisava passar um creme gelado na pele e que os joelhos de uma mulher nunca devem ficar ásperos.
Naqueles idos de maio ela aguardava, ou não, ansiosamente, a sua nuvem que – provavelmente só ela não via – teria perdido a forma já no mês de setembro ou enquanto ela ficou deitada sobre a terra fofa olhando o céu e o tempo não parou.
O certo é que, em mais esta interseção entre histórias de cegos, as moscas volantes cresciam diante de suas vistas cansadas enquanto a mulher que aprisionava os cavalos sem olhos no banheiro dos fundos se mantinha naqueles tempos, dando as ordens. Leal à rotina de armar as crinas dos bichos com laquê e pintá-los com cores duras. Sem esquecer de manter o menino vegetariano acorrentado ao pé da mesa. Arrastando pelos corredores os cavalinhos que nasciam mortos até a lixeira, ali diante do prédio, perto do estádio Beira-Rio, de madrugada, enquanto o síndico estava de pijama. Os bichos se reproduzindo, se reproduzindo... Sem os olhos. As crinas armadas.Do tanto, entre todas estas passagens de covardia e medo, a única coisa que ela, se é que seu nome será Rita, conseguia repetir pra si era: - Caralho! Me falta o ar!
Moscas Volantes
Bem vindo ao universo sanguíneo de Rita \o/ Moscas Volantes é uma série que trata da saga desta personagem. Os microcontos misturam um pouco de realidade dos meus dias e noites com o muito da fantasia dessa personagem. Eu relato as minhas sensações diante do concreto e das nuvens, me servindo da intuição e da falta de razão de Rita. Aparece sempre, interage quando achar legal :)